Os animais de estimação rendem histórias engraçadas. Existe uma infinidade de nomes atribuídos para chamar os animais. Dino, Xuxa, Boby, Biruta, Bolinha e outros apelidos servem para convidar para uma brincadeira ou dar uma bronca. Quem não se lembra de alguma arte que o 'totó' fez? Tem gente que pensa que os animais raciocinam como gente, e, quando fazem algo de 'errado', os enxotam para a rua.
Muitos são fofinhos, outros nem tanto. Alguns marcam imponência pelo porte físico e colocam respeito no quintal. Outros não intimidam pelo tamanho, mas pela insistência do latido ardido. Mas o que eles não suportam mesmo é a chegada do carteiro. A rejeição ao profissional perdura há muito tempo. Só não é mais antigo do que os conflitos com os gatos. Com os felinos ainda não foram encontradas formas de fazer as pazes.
Um grande número de cachorros consegue expressar através dos olhos e o chacoalhar eletrizante do rabo a satisfação em ter um bom dono. Outros, com corpos debilitados e cabisbaixos, levantam a cabeça timidamente, aguardando mais uma agressão ou então a espera de um "milagre". O que, na ocasião, pode ser até mesmo restos de comidas impróprias, ofertadas por um ser humano generoso. Essa é a rotina dos animais que vivem nas ruas. Os motivos para acabarem na sarjeta são os mais variados. O principal, a falta da posse responsável pelo dono.
Muitos tratam animais de estimação como ornamentos decorativos. Algumas pessoas vão ao pet shop, escolhem um filhote bonito, pagam um preço considerável e levam para casa. Durante algum tempo, o animalzinho é motivo de alegria. Ele se torna o centro da atenção das crianças. Mas, com o passar do tempo, quando chega à idade em que começa a fazer sujeira pela casa e se torna inconveniente, o seu destino é quase sempre certo: a rua. Se tiverem sorte, encontram outra família ou são acolhidos por instituições protetoras de animais. Se não, podem virar vítimas de atropelamento ou então são agredidos por pessoas.
Caracterizando a posse irresponsável de animais, pode-se classificar o não castramento, o que gera o aumento populacional de filhotes abandonados. Em entrevista feita por telefone com a proprietária da ONG SOS Cãopanheiros, Isabel Gulieri, disse que a instituição existe há quase 10 anos em Saquarema, no Rio de Janeiro. "O abandono é muito maior do que a adoção de animais. Nós recolhemos muitos filhotes abandonados porque as pessoas não têm a preocupação de castrar seus animais e, então, fica mais cômodo pegar a cria e colocar na rua sabendo que alguém vai adotar. Muitos cachorros chegam em situações deploráveis", afirmou.
De acordo com a proprietária, os animais chegam até a ONG em situações físicas complicadas. "O ser humano sabe que o animal é uma companhia indispensável. No momento, eu estou com 250 cães. Três deles são deficientes, andam com ajuda de carrinhos e, por algum motivo, iriam ser sacrificados. Muitos acham que os animais deficientes não têm opção de viver como os outros. Muitos cachorros chegam em situações deploráveis, cheios de machucados", comentou Isabel.
Para manter uma instituição filantrópica, é preciso amor, dedicação e dinheiro. De acordo com a responsável pela ONG, 250 animais consomem diariamente 100 quilos de ração. Devido ao grande número de cachorros, é necessário funcionários para ajudar a cuidar. Além dos gastos com alimentação, ela mantém três pessoas que trabalham no período diurno e dois no noturno. "Eu tenho que dar uma boa contribuição do meu orçamento particular e conto com a ajuda de amigos. Pessoas que gostam de animais fazem uma contribuição mensal no valor que quiser. Não existe um valor estipulado pela ONG, a doação é feita de forma voluntária."
Apesar de contribuir com a retirada dos animais das ruas da cidade, a ONG não recebe nenhuma verba por parte do governo ou da prefeitura de Saquarema. "Tiramos os animais mal cuidados das ruas que, de certa forma, enfraquece o próprio turismo. Se você chegar em uma cidade e vê animais magros e doentes pelas ruas, isso vai chocar", ressaltou.
A carioca apaixonada por cachorros disse ter tempo para dar atenção a todos. Como ela vive na capital, nos fins-de-semana vai a Saquarema visitar a sua 'família animal'. "Faço um passeio com todos. Desses 250, pelo menos 150 vão às ruas correr e todos são animais dóceis. Os moradores da cidade até saem para vê-los, sem medo nenhum de sofrer qualquer tipo de agressão. Esse passeio se tornou um atrativo em Saquarema, principalmente, quando é feriado e tem mais pessoas", disse.
O artigo 32 da lei 9.605/98, a Lei de Crimes Ambientais, estabelece pena de reclusão para quem comete crimes contra a fauna silvestre, doméstica ou exótica. A pena pode variar de três meses a um ano de prisão, sendo possível o acréscimo de um terço do tempo caso ocorra morte do animal. Isso significa que o infrator pode ficar preso em um período máximo de 16 meses.
Porém, de acordo com a lei, pessoas que cometem crimes de nível baixo ou intermediário contra animais podem trocar a reclusão por uma pena alternativa, que é composta pela execução de serviços comunitários e pagamento de multa. Durante cinco anos, o acusado não pode ser indiciado novamente, sob pena de perder o benefício e ir para prisão.
De acordo com relatos divulgados pela Associação Humanitária e Protetora do Bem-estar Animal (ArcA), a aplicabilidade da lei está muito difícil de ser cumprida pela dificuldade de se identificar o agressor. Casos de covardia acontecem diariamente e os infratores ficam impunes. A lei também beneficia o agressor, já que a pena pode ser convertida em serviços comunitários.
Animais têm velório digno de humanos
Os animais de estimação são muitos amados pelos donos e o sentimento é sempre retribuído. Cachorros, gatos e outros que vivem no meio humano estão sempre dispostos a compartilhar momentos agradáveis e a superar as dificuldades sem trair a confiança do dono. A relação que atravessa séculos já rendeu dezenas de livros e filmes.
Porém, a relação entre homem e animal de estimação não é somente constituída de alegria. O cachorro, por exemplo, vive em média, no máximo, 15 anos de vida, o que na sua espécie corresponderia a aproximadamente 90 anos na idade humana. Um dos momentos difíceis é ter que superar a morte do animal de estimação. Há quem considere o animal um membro da família, de modo que é preciso até mesmo terapia com psicólogos para amenizar os desgastes mentais provenientes da perda.
Pensando em proporcionar conforto e segurança para quem tiver que passar pela perda, surgiram no Brasil os cemitérios de animais. Neles, o contratante do serviço tem à disposição uma pessoa para fazer a remoção do corpo no local da morte, urnas funerárias, locais para sepultamento e até mesmo salas de crematório.
Um dos cemitérios mais famosos do Brasil é o Pets Garden, no Rio de Janeiro. A coordenadora da ONG SOS Cãopanheiros, Isabel Gulieri, também é dona do cemitério. Ela afirmou ter tido a idéia de prestar esse tipo de serviço após ter sido enganada por outra empresa existente no mercado. "Quando meu cachorro faleceu, eu paguei uma pessoa para enterrar, achando que a coisa seria feita com seriedade. Acabei me decepcionando porque eu mesma fui me deparar com o corpo da bichinha. Então, tivemos a idéia de fazer um cemitério e crematório de animais para auxiliar pessoas que muitas vezes são iludidas, pensando que o animalzinho vai ter um destino correto. Algumas empresas jogam os animais em lixões", afirmou.
Recentemente, um cemitério clandestino de animais foi interditado em Cambe, Norte do Paraná, pelo fato de não ser permitido o enterro de animais em locais onde não há essa finalidade. No local, foram encontrados aproximadamente 10 corpos de animais. O sepultamento incorreto pode contaminar os lençóis freáticos, por isso é necessário que uma série de normas seja seguida para haver a autorização do funcionamento do cemitério.
"O nosso cemitério é totalmente regulamentado. A nossa instituição existe há mais de cinco anos. O sepultamento é feito em módulos. Temos sete verticais, como se fossem gavetinhas, para que não seja nada feito no solo. Tem gente que renova a sepultura do animal enterrado ou, às vezes, a gente oferece a cremação e a pessoa leva as cinzas do animal", lembrou Isabel.
De acordo com a proprietária do cemitério, o momento da perda do animal é muito difícil. Nessas horas, é preciso oferecer ao cliente um local onde transpareça paz. Existem pessoas que contratam o serviço de cremação do animal e pedem para que as cinzas sejam entregues na residência, pois não querem participar do clima hostil de um cemitério.
Isabel está prestes a lançar um novo serviço no mercado. "Para as pessoas que não querem comparecer, mas também não querem deixar de ver a cerimônia fúnebre, iremos solucionar esse problema. Estamos com alguns problemas com o nosso provedor, mas queremos transmitir o funeral pela internet para o dono do animal."
O amor entre homem e animal transpassa a linha da vida e se torna eterno. Prova disso é que existem pessoas que visitam constantemente o "ente" sepultado no local. "Temos clientes que vêm semanalmente. Trazem flores e bichinhos de pelúcia. Isso nos dá uma satisfação muito grande. Saber que a pessoa gosta tanto do animal, que se possível, seriam sepultadas até mesmo no mesmo túmulo do bichinho", ressaltou Isabel.
Porém, quem pretende proporcionar uma última homenagem ao animal de estimação terá que desembolsar R$ 70,00 para cremar bichos de pequeno porte e mais de R$ 100,00 para animais maiores. Já quem optar pelo sepultamento, o preço pode ser um pouco maior. Mas, de acordo com a proprietária do cemitério, tudo depende do porte do animal.
Bicho de estimação tem religião?
No último dia 4 de setembro, foi realizada na Paróquia Anglicana São Lucas a inédita "Bênção Ecumênica para Animais", em comemoração ao dia de São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia. O evento religioso organizado pelo Movimento Ecumênico de Londrina (MEL) reuniu várias pessoas para que seus bichinhos fossem abençoados.
Os proprietários levaram seus animais de estimação à igreja para que os oradores os abençoassem. As portas do templo religioso foram abertas para todos os tipos de animais. Cachorros de várias raças e pássaros de várias espécies marcaram presença no evento.
De acordo com o pastor Carlos Jeremias Klein, eventos religiosos nesses moldes são inéditos em Londrina. "Pela internet, tive o conhecimento de que apenas em Guarulhos e Belo Horizonte foram realizadas bênçãos ecumênicas. Aqui, na região, está sendo exclusivo", comentou Klein.
Atividades que envolvem religião e animais geram grandes repercussões. De acordo com o pastor, o evento pode gerar opiniões discordantes. "O MEL no canto ecumênico pode representar vanguarda em algumas ações religiosas. Sempre haverá vozes discordantes, mas estamos convencidos de que o Deus criador de todas as coisas abençoa todas as criaturas existentes. Essa é apenas mais uma forma simbólica para a conscientização da importância da criação e do meio ambiente, para que sejamos mais responsáveis como 'mordomos' da criação de Deus", ressaltou Klein.
Durante a bênção, os animais doentes receberam orações especiais, diretamente dos freis e pastores. O objetivo do MEL foi disseminar a cultura de paz entre homem e animal, além de ressaltar os valores do meio ambiente à sociedade. Na ocasião, o pastor Carlos Klein aproveitou para deixar uma bênção a todos os animais que não puderam comparecer ao evento. "Que a bênção de Deus esteja sobre todas as pessoas e animais, sobre toda criação. Que o Senhor nos abençõe, guarde e proteja."


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