Artista de rua vive na corda bamba

Postado por Tiago Rafael de Jesus On 20:43


De acordo com pesquisas divulgadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos (Dieese), com base nas estatísticas reveladas pelo Censo 2000, publicados pelo IBGE, na última década, o Paraná foi caracterizado pelo desemprego e no desequilíbrio no que se refere à má distribuição de renda.

Segundo dados divulgados pelo Senado Federal, só no Paraná, quase 2,1 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da miséria, com renda inferior a R$ 80 mensais. Apenas 2,5% dos trabalhadores empregados têm renda superior a vinte salários mínimos e 58% dos trabalhadores ganham menos de três salários mínimos por mês. Nos últimos anos, a distribuição da mão-de-obra paranaense mostra que 19% dos empregos estão no setor primário, 18% no comércio e 16% no setor industrial.

Em meio a uma época marcada por crises financeiras e incertezas no mercado de trabalho, uma das formas de se garantir o pão de cada dia é através do trabalho informal. Quando se trata de sobrevivência, o instinto criativo não deixa o brasileiro na mão. Nas ruas, encontramos pessoas comercializando bombons, mercadorias importadas da China e até mesmo personalidades que fazem shows circenses em troca de algumas moedas.

Prova disso é a situação vivenciada pelo "show men" das ruas, o malabarista Sérgio Maciel, 65 anos. Há mais de 50 anos, ele realiza apresentações em locais públicos, de várias partes do país. Atualmente, o malabarista transforma o solo do calçadão de Londrina em picadeiro. A satisfação em se apresentar para o público contrasta com o rosto cansado, marcas de uma trajetória de dificuldades.

Para sobreviver, Maciel teve que aprender a cair e levantar. "Eu sai do Ceará com apenas 10 anos de idade. Fui parar no circo, onde aprendi muita disciplina. Vi que se você quer aprender a andar numa corda bamba você tem que aprender a se disciplinar. Se você cair, tem que subir de novo. Essa é a regra que tem dentro do circo e no mundo", revelou.

Com vasta experiência em andar sobre corda bamba, pular entre arcos repletos de facas e malabarismos, ele disse que foi bem aceito pela população londrinense. No entanto, nas expedições pelo Brasil, ele contou que nem sempre foi bem vindo. "Já encontrei alguns obstáculos para me apresentar em algumas cidades. Uma vez falaram que amarrar corda em duas árvores é crime ambiental. Mas no Pará, o pessoal carrega caminhão com tora de madeira, os motoristas e empregados são todos armados com espingardas e os ambientalistas fiscalizam. O povo está colocando fogo na Amazônia e quase ninguém se preocupa. E vem colocar defeito porque estou trabalhando."

O artista de rua destacou a receptividade dos londrinenses. "O pessoal aqui de Londrina reconhece o trabalho dos artistas de rua. Passa um, dá uma moedinha, passa outro e colabora com a presença, aplausos e educação. Londrina para mim é uma cidade maravilhosa. A primeira vez que eu cheguei fui bem recepcionado. É isso que vale para um artista: o reconhecimento", afirmou.

Além do espetáculo circense, Maciel deu uma lição de cidadania, misturando a realidade da vida com uma pitada de bom humor. Apesar de nunca ter freqüentado os bancos escolares, ele repassa aos espectadores o que aprendeu com a vida. "Tudo o que eu sei, aprendi na Bíblia Sagrada. Durante as apresentações que faço por todas as partes do Brasil falo as verdades da vida. A verdade dói, machuca, mas é a verdade. Não tem outra saída".

Artista realiza sonho de se apresentar na TV

Ao longo da carreira cigana, um dos maiores desejos do malabarista Sérgio Maciel era ter o reconhecimento pela mídia. Após 30 anos enviando materiais para veículos de comunicação, o dia do artista de rua chegou em alto estilo.

"Há décadas, eu tentava participar de um programa de TV. Escrevia, mandava fita de vídeo, mas nunca recebia uma resposta. Certo dia, um amigo, me inscreveu no quadro 'Se vira nos 30', do Domingão do Faustão. Quando me ligaram e falaram que eu havia sido selecionado para participar, não conseguia dormir mais", disse. "Quando chegou o grande dia, eu tinha fé em Deus que iria ganhar. O momento mais importante para mim foi quando o Faustão anunciou que o verdadeiro artista de rua tinha ganhado o prêmio de R$ 10 mil. Eu cheguei a aparecer até no Globo Repórter", lembrou.

Como é tradicional na mídia, o sucesso em âmbito nacional do artista foi momentâneo. Hoje Maciel continua com a rotina de apresentações ao ar livre, vivendo apenas das contribuições do público e dividindo o espaço com outras pessoas do mercado informal. Ele comentou que não pretende parar os shows tão cedo. "Começei no mundo da arte com 12 anos. Hoje tenho 65. Quero ser artista de rua até enquanto tiver forças, porque amo meu trabalho."

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